Sunday Session

O tênis além do placar. · Por Marcos Valle

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Quem veste o tênis? Dos pioneirismos de Federer às curiosidades da era Guga

Ilustração de três camisas de tênis, uma raquete de madeira e uma bola, em verde profundo, creme e laranja.

Abra uma foto de tênis dos anos 80 ou 90 e talvez você reconheça a época antes mesmo do jogador.

Björn Borg com as listras da Fila. Boris Becker de Ellesse. Yannick Noah com o galo da Le Coq Sportif. Agassi transformando roupa de tênis em cultura pop. Prince, Sergio Tacchini, Diadora.

Quarenta anos depois, aquela estética está novamente nas ruas: polos retrô, shorts curtos, track jackets, listras, meias altas. O visual do antigo tennis club virou referência de moda e streetwear.

Só existe uma ironia: algumas das marcas que criaram esse imaginário praticamente desapareceram das principais quadras.

Fila, Ellesse, Prince, Le Coq Sportif e Sergio Tacchini continuam existindo, mas nenhuma ocupa hoje o espaço que já teve entre os maiores jogadores do planeta.

O tênis voltou a se vestir como nos anos 80. Só esqueceu de chamar algumas das marcas que inventaram aquele visual.

Quando a camisa dizia quem você era

Em 1974, a Fila lançou a White Line. No ano seguinte veio a famosa polo listrada de Björn Borg. Em um esporte ainda esteticamente conservador, a Fila colocou cor e personalidade. Borg fez o resto.

A camisa deixou de ser uniforme e virou objeto de desejo.

Ellesse viveu algo parecido com Becker. Le Coq Sportif teve Noah levantando Roland Garros em 1983. Sergio Tacchini atravessou gerações de campeões. Prince virou símbolo do tênis nos anos 80 e 90.

Hoje várias delas aparecem mais nas ruas do que nas quartas de final de um Grand Slam.

A estética sobreviveu ao domínio esportivo das próprias marcas.

47 marcas disputando o mesmo jogo

Um levantamento da Jambo Sport Business, publicado por Halfen em abril de 2026, com os 100 melhores homens e as 100 melhores mulheres encontrou 47 marcas de vestuário. Adidas tinha 13,5%, Nike 11,5%. Entre os Top 10, porém, a Nike chegava a 25%.

Uma marca pode espalhar dezenas de contratos pelo circuito. Outra pode concentrar milhões em poucos jogadores capazes de chegar ao segundo domingo de um Slam.

Vestir um tenista também é fazer uma aposta.

BOX | QUEM VESTE O TOP 10?

Recorte dos rankings de 31 de agosto de 2026, vigentes durante o US Open. Percentuais de vestuário, sem contar raquetes e calçados. Marcas conferidas em 12 de setembro.

ATP

Nike 20%Sinner e AlcarazAdidas 20%Zverev e Auger-AliassimeLacoste 20%Djokovic e MedvedevOn 20%Cobolli e SheltonAsics 10%De MinaurBOSS 10%Fritz

A On, fundada em 2010 e levada ao tênis por Federer, já tem a mesma presença no Top 10 masculino que Nike, Adidas e Lacoste.

WTA

Nike 30%Sabalenka, Andreeva e AnisimovaAdidas 30%Pegula, Muchová e SvitolinaYonex 20%Rybakina e NoskováNew Balance 10%Coco GauffOn 10%Iga Swiatek

Nike e Adidas vestem metade da superelite, mas há oito marcas em apenas 20 jogadores.

Enquanto isso:

Fila: 0 | Ellesse: 0 | Prince: 0 | Le Coq Sportif: 0 | Sergio Tacchini: 0

Nenhuma delas aparece entre os 20 jogadores desse recorte.

A estética antiga voltou. Os logos, não.

Guga: quando acreditar antes valia mais que o cheque

Quando Gustavo Kuerten virou profissional, em 1995, a Diadora apostou nele. Não era número 1, campeão de Slam nem aposta óbvia.

Dois anos depois, entrou em Roland Garros vestido pela marca italiana e saiu campeão.

A Diadora tinha acertado na loteria.

Vieram mais dois Roland Garros, o número 1 do mundo e os gigantes.

Em 2001, a imprensa publicou que a Nike teria oferecido US$ 10 milhões por ano para tirar Guga da Diadora. A Nike negou ter feito essa oferta, como registrou a Folha em março daquele ano.

E um detalhe ajuda a entender esse mercado: segundo relato posterior do Sports Business Journal, Nike e Adidas disputavam Guga, mas a negociação com a Nike esbarrou na manga da camisa. A empresa não queria flexibilizar sua política para determinados patches. Guga tinha o Banco do Brasil ali e o logo precisava continuar.

Alguns centímetros de tecido ajudaram a decidir um contrato milionário.

A guerra Diadora x Olympikus

Sydney, 2000. Guga era patrocinado pela Diadora, mas a delegação brasileira vestia Olympikus.

O COB queria o uniforme oficial. A Diadora, que o acompanhava desde antes da fama, não queria seu maior atleta vestindo uma concorrente. O impasse chegou ao ponto de Guga anunciar que não disputaria os Jogos.

Houve acordo e ele competiu com uma solução que evitava o conflito. O episódio, porém, mostrava a lealdade à empresa que havia apostado nele antes de Roland Garros.

A ironia veio em 2002.

Guga deixou a Diadora e assinou justamente com a Olympikus.

A Folha reportou aproximadamente US$ 6 milhões por três anos, contra cerca de US$ 2,5 milhões no mesmo período no acordo anterior com a Diadora. Guga também queria participar do desenvolvimento dos produtos, enquanto a Olympikus pretendia usar o maior tenista brasileiro para ganhar projeção internacional.

Ao redor dele ainda havia Banco do Brasil, Rider e outras empresas. A “Gugamania” havia transformado um tenista em personagem da cultura brasileira.

Primeiro a marca aposta no jogador. Depois o jogador fica grande o suficiente para escolher as marcas.

Agora olhe para a manga

Da próxima vez que assistir às primeiras rodadas de um Grand Slam, repare nos pequenos logos.

Segundo estimativas publicadas pela Forbes, um patch comercial em uma superstar do tamanho de Djokovic pode valer US$ 3 milhões ou mais por ano. Para um jogador menos famoso do Top 10, pode chegar perto de US$ 250 mil anuais.

Mas algumas dezenas de posições abaixo existe um negócio ainda mais curioso:

às vezes, o patrocinador dura uma partida.

Imagine o número 150 do mundo entrando no US Open sem grande contrato. O sorteio coloca Carlos Alcaraz do outro lado da rede.

De repente, ele estará durante horas no Arthur Ashe diante de milhões pela televisão.

A manga ficou valiosa da noite para o dia.

A Blue Owl Capital percebeu isso. Em vez de investir milhões numa única estrela durante toda a temporada, passou a selecionar jogadores partida por partida nos Slams. Em janeiro de 2025, a Forbes estimou um investimento de aproximadamente US$ 2 milhões para mais de 100 partidas nos quatro Slams daquele ano.

O valor de mídia estimado de um patch pode chegar a US$ 115 mil a US$ 250 mil por partida nas primeiras rodadas, cerca de US$ 400 mil depois e até US$ 2 milhões em uma grande partida.

É quase uma loteria

No US Open de 2024, a Blue Owl patrocinou Li Tu, então aproximadamente 186º do mundo.

Adversário? Carlos Alcaraz.

Tu ainda ganhou um set.

Outro escolhido foi Alexei Popyrin. Entrou com o patch e eliminou Novak Djokovic.

Jackpot.

Essa é uma particularidade do tênis: quando o número 150 enfrenta o número 1, a câmera precisa mostrar os dois. Durante algumas horas, o patrocinador de um azarão divide a transmissão com empresas que pagam milhões pelas maiores estrelas.

John Isner já contou outra curiosidade desse universo: às vezes era necessário receber o patch e literalmente passá-lo a ferro na camisa dentro do quarto do hotel antes da partida.

Federer recebeu um acordo reportado em US$ 300 milhões para usar o quadrado vermelho da Uniqlo. Em outra parte da chave, alguém pode estar colando seu patrocinador poucas horas antes de entrar em quadra.

Mesmo esporte. Negócios completamente diferentes.

Para alguns, glamour. Para outros, sobrevivência.

Um levantamento publicado pela RunRepeat em 2023, com os 75 melhores homens, encontrou 74 com patrocinador de vestuário identificado e apenas um sem marca divulgada.

Isso não significa 74 contratos milionários. Alguns pagam dinheiro, outros material e bônus. Há ainda jogadores de nível Grand Slam sem patrocinador oficial de vestuário.

E a conta não para: passagem, hotel, alimentação, treinador, fisioterapia, preparação física, cordas, equipamento, transporte e impostos.

Para muitos, conseguir um patrocinador não significa luxo.

Significa conseguir fazer a próxima viagem.

A ATP reconheceu essa fragilidade ao criar o Baseline, programa de proteção financeira para jogadores elegíveis.

Existe uma distância enorme entre ser tenista profissional e ser uma estrela do tênis profissional.

US$ 300 milhões de um lado. Um patch do outro.

No mesmo torneio, um jogador pode ter roupa desenhada exclusivamente para ele enquanto outro recebe apenas material. Um escolhe entre gigantes oferecendo milhões; outro espera o sorteio para descobrir se enfrentar uma estrela tornou sua manga mais valiosa.

E os dois podem se enfrentar na primeira rodada.

No fim, a história fecha um círculo.

Borg transformou Fila em desejo. Becker levou Ellesse às maiores quadras. Noah eternizou Le Coq em Roland Garros. Agassi transformou uniforme em cultura pop. Guga fez uma geração de brasileiros reconhecer uma camisa antes mesmo do placar.

Depois Nike e Adidas aumentaram a escala. Uniqlo comprou uma das imagens mais valiosas do esporte. Federer ajudou a On a atravessar a rede. Lululemon e Vuori perceberam que tênis vende lifestyle.

Enquanto isso, a moda continua buscando inspiração justamente nas décadas de Fila, Ellesse, Prince, Le Coq e Sergio Tacchini.

Algumas das marcas que perderam as quadras continuam definindo como queremos que o tênis pareça.

Mudaram jogadores, contratos e logos.

O desejo de parecer um pouco com quem está do outro lado da rede continua igual.

Roupa foi só o primeiro set

Se vocês curtirem, ainda temos outras histórias para as próximas Sunday Sessions.

Raquetes. Quem domina o circuito, quanto vale colocar Wilson, Head, Babolat, Yonex ou Tecnifibre na mão de uma estrela e por que a raquete vista na televisão muitas vezes não é a mesma vendida na loja?

Tênis. Nike, Adidas e Asics contra On e novos concorrentes. Contratos próprios, modelos exclusivos e signature shoes.

E ainda há relógios, bolsas, cordas, óculos e acessórios.

Porque no tênis profissional quase nada que aparece diante das câmeras está ali por acaso.

Roupa foi só o primeiro set.

Agora, sim: o tênis

As camisas contam uma história. As quadras passaram o sábado escrevendo outras. Aqui estão a nova campeã de Nova York, a final masculina e os brasileiros — com o domingo já batendo à porta.

O trono já era dela. Agora, a taça também.

Elena Rybakina chega à segunda-feira com dois motivos para olhar Nova York de outro jeito. A liderança do ranking já estava garantida; ontem veio o primeiro US Open, com vitória sobre Aryna Sabalenka por 6-4, 5-7 e 6-2.

É o terceiro Grand Slam da cazaque e o segundo de 2026, depois do Australian Open. Nas duas finais deste ano, a adversária foi Sabalenka. O número 1 será oficializado amanhã, 14 de setembro. A troca no ranking, desta vez, vem acompanhada da troca de campeã.

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Uma final. E 23 anos na arquibancada.

Ben Shelton enfrenta Alexander Zverev hoje na primeira final de Grand Slam da carreira. Do outro lado da espera está um país: nenhum americano vence um major de simples masculino desde Andy Roddick, no US Open de 2003.

Shelton chegou à decisão depois de virar sobre Frances Tiafoe, por 4-6, 6-3, 6-3 e 7-5, na sexta. Antes, havia eliminado Alcaraz. Aos 23 anos, tentará encerrar um jejum que tem quase a sua idade. A torcida pode fazer barulho. A última palavra, porém, continua do outro lado da rede.

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Guto ficou a um ponto. A campanha fica.

Guto Miguel teve três match points, mas o título juvenil do US Open ficou com Marcel Latak. O americano venceu de virada por 3-6, 7-5 e 7-6, com 15-13 no desempate decisivo, após 2h46.

O brasileiro havia reagido de 2-7 no super tie-break e salvado quatro oportunidades de título do rival. Campeão de Roland Garros juvenil neste ano, saiu de Nova York com o vice. Dói pelo que faltou; não apaga o tamanho do caminho percorrido.

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Nova York se despede. São Paulo abre a porta.

O SP Open, WTA 250 no Parque Villa-Lobos, tem hoje o segundo dia de qualifying. A programação oficial prevê início às 13h, com abertura dos portões às 12h.

A fase classificatória distribui quatro vagas na chave principal, que começa amanhã, 14 de setembro. Os ingressos do quali são gratuitos, mediante resgate e disponibilidade. Para quem está em São Paulo, é a chance de trocar a transmissão pela arquibancada.

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Até o próximo domingo

E você, tenista: qual camisa marcou a sua memória? A de um ídolo, de uma final ou daquela primeira aula? Escreva para contato@bolacurta.com.br. A próxima conversa pode começar por aí.

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